quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Permita-me te amar

Num dos diálogos entre os meus eu's, descobri coisas a meu repeito que sequer teria imaginado algum dia.
Meu coração é masoquista!
Sim, ele só existe se sofre. E eu só sei que habita em mim, um órgão que bate, quando ele apanha. 
Complexo isso?  Talvez. Engraçado? Acho que não.
Mas é que isso faz um sentido danado dentro de mim. 
Às vezes me esqueço que ele existe, simplesmente por que ninguém mais mora lá. Mudaram-se todos os inquilinos. 
Devolveram as chaves, e disseram que não voltarão.
Por isso o esqueço.
Percebi que é preciso mante-lo ocupado,alugado, pra que eu o perceba, pra que eu o escute, pra que eu o note.
Assim vazio, calado, não há o que falar sobre, não há o que sentir, não há o que escrever...
E esse período congelado, incomoda, e mesmo calado, grita.
Grita e pede socorro ao primeiro que passar na rua, ao primeiro que ousar se aproximar um pouco mais.
 "Socoooorro, permita-me te amar?"
Sim, é isso que o silêncio do meu coração grita. Ele tem necessidade de amar,até mais que ser amado.
Ele sente que ser amado, é a recompensa do amor liberado por ele. 
E isso é o de menos quando  se tem um inquilino morando ali.
'Permita-me te amar? Permita-me existir novamente? Permita-me ser notado? Permita-me ter o que falar?' 
Permita-me,permita-me... Terminou sussurrando ele em uma de nossas conversas.
Coração que grita calado. Coração que implora para ser habitado.
Coração masoquista, quer sofrer para sentir-ser vivo. Quer apanhar para ver que ainda existe.
Um paradoxo que só faz sentido pra ele.
Não tente entende-lo. Assim como eu, você não o conseguirá.
Simplesmente permita-o.
 Permita-o existir. Permita-o ter o que falar.
Permita-o.
Permita-me.
Permita-nos ser.
Permita-nos coexistir.
Mude-se pra cá com mala e cuia, e me entregue as chaves para não corrermos o risco de perder mais um inquilino. 
Fique, e ganhe o direito usucapião do meu coração.
Permita-me te amar.