domingo, 29 de junho de 2014

Sen-ti (dos)


O Asteroide adormeceu e com ele adormeceram também meus sentidos.
Sinto-os adormecidos dentro, sonhando por um dia acordarem do pesadelo de se prenderem em sonhos.
Sentidos claustrofóbicos, ansiosos pra saírem, voarem livres das prisões de devaneios.
Engolidos à seco na primeira tentativa de se fazerem livres.
Seco, rasga, sangra, de dentro pra dentro de um labirinto de pesadelos.
Pesados. Toneladas deles.
Minha estatura não me permite aguentá-los.
Meu psicológico não me permite sustentá-los.
Não tem despertador interno que possa despertá-los.
Permanecem imóveis, com um silêncio ensurdecedor me torturam.
E eu, já sem forças me rendo.
Bandeira branca de mim, para mim mesma.
Sentidos. Senti-los. Sent-idos.
Sent-ir.



terça-feira, 3 de junho de 2014

Ser patriota é pedir demais

"Ah, mundo tão desigual. 
Tudo é tão desigual.
Ah, de um lado esse carnaval, do outro a fome total..." 

Gil bem sabia das desigualdades deste país quando sentou para escrever esta canção. 
Bom seria se fosse somente nas letras das canções, e nos devaneios dos poetas que existisse a desigualdade. 
Hoje a população brasileira se divide em dois: os que estão felizes por sermos cede da "copa das copas" e outra indignada por sermos cede do evento. 
Eu, particularmente não consigo ter um coração excitado com o tal evento vendo todas as necessidades que meu país sofre. 
Virou clichê falar dos hospitais lotados sem condições de atender o povo. É clichê falar que a educação do país está desfalecida nos braços do governo omisso. 
É clichê falar das condições desumanas que tantos humanos vivem neste país, "Terra de Santa Cruz". 
Terra onde a maioria dos brasileiros, trabalhadores, não somente do afixo 'eiro', carregam suas cruzes mais que pesadas a fim de terem o que comer na mesa.
Saem de casa, muitas vezes sem saneamento básico, arrastando suas cruzes por entre a selva de pedras sem saber se ao menos volta pra casa vivo antes do anoitecer. 
Terra onde se vive morrendo de medo de morrer, seja no hospital sem médicos, seja na fila de exame que demora um ano pra conseguir. 
Seja por medo das balas perdidas, mas encontradas num corpo cansado do trabalho árduo. Seja por medo de militares perdidos por entre suas funções de proteger. 
"Mas também, não precisa jogar na cara as mazelas do país!" 
Precisa.
Precisa sim!
Precisa jogar toda essa 'merda' que o governo tem feito no ventilador e ver onde espirra. Pra ver se o povo acorda, pra ver se o governo acorda, pra ver se os patriotas acordam.
Meu coração patriota morreu na fila de hospital sem leito.
Meu coração patriota morreu nas muitas escolas abandonadas pelo governo.
Meu coração patriota morreu junto aos milhares mortos todos os dias nas ruas ou vielas deste país. 
Meu coração patriota morreu nas manifestações ano passado, onde nada, absolutamente nada mudou.
Meu coração patriota foi soterrado junto às muitas casas desapropriadas para as construções de estádios que serão abandonados no próximo mês.
Sem patriotismo. 
Desde 1987 que estamos pedindo, "comida, diversão e arte". Desde 87 que nos perguntamos "Que país é esse?" junto ao Renato Russo.
Desde 1500 vivendo a base de pão e circo. 
"Ah, tudo é tão desigual, de um lado esse carnaval, do outro a fome total."
E nada muda, e nada vai mudar se continuarmos coniventes com esse circo total. 
Não me peçam para aceitar a copa calada. Não me peçam para ficar contente com a "exposição" do nosso país para com os 'gringos'.
Ser patriota no meio desse lixo todo é pedir demais!