segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Chove lá fora e aqui


É meia noite, saí muito tarde do jornal e chove muito aqui.
Não têm mais ônibus esse horário e parece que os taxis tiraram o dia de folga, e eu estou sozinha na rua, aparentemente deserta, correndo debaixo dessa chuva.
Meus cadernos molharam, assim como meus sapatos e minha chapinha que se desfez em meio a tanta coisa que já foi por água a baixo na minha vida e nem precisou da chuva pra isso.
Não vale a pena chorar o leite derramado, tampouco a chuva derramada, nem as lágrimas derramadas, debaixo da chuva ou não.
Cansada de correr, paro, sento na calçada, deixo os cadernos de lado (pelo menos por agora) e resolvo colocar pra fora todo o sentir ressequido pelo tempo dentro de mim.
É hora de umidificar o ambiente de fora e de dentro, com chuva, ou quem sabe, com as lágrimas que resolveram se misturar às gotas de água.
Não me importo mais, (tá na chuva é pra se molhar) não é assim o ditado?
Molho os papéis, o rosto, os cabelos, exponho o interior pra receber a água da chuva, como minha mãe faz com as plantas dela em dia de chuva.
Me exponho.
Escancaro o sentir em excesso que me habita, a fim de que possa se diluir em maio à chuva e às lágrimas.
Os escritos "eternizados" por mim nas folhas começam a borrar a ponto de não se conseguir ler mais.
Só eu sei o que esses borrões significam. E significam tanto...
Com um nó na garganta, molhada, destruída, desiludida com a chuva, com o jornal, com os borrões, com tudo que se desfez debaixo desse 'pé dágua', desisto.
Desisto de voltar pra casa hoje e quem sabe nos próximos 10 anos...
Deixa chover, deixa borrar, deixa perder. Deixa.
Me deixa.
Deixa a chuva lavar/levar o que resta.
Mas não me esquece.
Que qualquer hora o dia amanhece, com o sol sorrindo pra mim novamente, e eu volto.
Pro jornal, pra casa. De taxi ou de ônibus, eu volto.
"Espera que o sol já vem"