segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Ser. Hoje.


Hoje sou árvore.
Sinto-me árvore. 
Alta, esguia, longilínea, imponente. 
Mas em meio à mata fechada da vida, ser árvore pode não significar tanto. 
É só mais uma em meio ao 'mar verde' de árvores habitáveis e habitadas.
Não sou árvore habitada, embora seja habitável. 
É que os pássaros que pousam, são ligeiros e logo voam, vão embora.
E eu os entendo. 
Pássaros foram mesmo feitos pra voar.
Mas às vezes faz falta alguém morando por aqui, seja do lado de dentro ou de fora. Um João de Barro talvez. Por que não um Beija-flor? Uma Calopsita, seria lindo. Um Canarinho amarelo não seria uma má ideia. 
Mas todos eles voam, e privá-los de sua natureza não seria legal da minha parte. 
As corujas... Talvez elas queiram habitar-me. 
Mas quando chega a noite elas também voam pra longe, e de dia...Quem precisa de companhia enquanto o sol brilha? 
Talvez se eu voasse... 
Ter minha raiz presa às vezes me incomoda. É difícil ser árvore-livre. 
Mas embora "presa", sinto ser tocada...
Vento forte, brisa suave, tempestades e chuviscos. 
Sinto-os com a intensidade que merecem ser sentidos. 
Às vezes algumas lágrimas se misturam aos pingos da chuva que desenham meu corpo-tronco. 
Árvores também choram, e quando são machucadas por terceiros, passam quase que despercebidas.
Não sou árvore todos os dias, mas sou hoje. 
E hoje, sendo o que sou, dou me o direito de sentir que vale a pena existir. 
Mesmo na solidão "acompanhada" que vivencio, vale a pena os percalços da existência.


"Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido."