domingo, 15 de maio de 2016

habit-ação

Elizabet está de mudança, seu apartamento parece apertado demais já que traz consigo uma bagagem enorme de sentimentos e vivências.
Ela possui um apartamento do outro lado da cidade que estava alugado, resolveu pedir de volta, já está com as chaves em mãos.
Decidiu voltar...
Ela sabe que só pessoas fortes conseguem dar um passo para trás na vida, e às vezes faz-se necessário voltar o relógio pra pôr em ordem algumas pendências.
"Carece de ter coragem!"
Encaixotou suas coisas, seus livros, deparou com lembranças adormecidas pela casa que a fizeram refletir o passado, o presente, o futuro.
Elizabet chorou sentada no chão da sala, não sabe se pelo frio que tomou conta de seu corpo, ou se pelas paredes que pareciam sufocá-la. Como se elas (as paredes) tivessem vida e saíssem de seus lugares pressionando-a contra ela própria.
Mas não tem problema chorar, umidifica esse ar seco, essa cidade de pessoas secas... Elizabet, intensa que só, faz chover. Sai de si e baila no compasso de seu coração debaixo de sua tempestade particular.
Ela muda... Bota tudo no lugar na casa nova.
Só.
Sabe que embora sozinha, sua chuva trouxe uma enxurrada de pacificação interior, e entende que o que importa é sentir-se em paz consigo mesma.
Proprietária de si, tem um coração tão grande que não cabia na casa que habitava. Anseia por amar... Sem limites, sem reservas, sem restrições, mas sabe também que não pode Se esquecer para que isso aconteça. Não pode se abandonar no chão da sala, é necessário a-mar-se antes de mais nada.
Sem inquilinos.
Ela cuida do recinto e só aceita visitas de quem se demora, no chão ou, no sofá confortável da casa nova. De preferência alguém que goste de café forte, vinho seco, cigarros, conversas filosóficas ou fiadas. Gente sem relógio, sem hora, sem meio termo, gente que se doa, que entrega, que demore, que fique...
Que fique acompanhando-a na essência e não somente roube sua solidão.
Elizabet mudou de casa.
Mora dentro de si própria. E hoje, só entra quem for realmente ficar.
A porta está trancada do lado de dentro.
E que 'dentro' gostoso de habitar.



"Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado só de quem me interessa" 
♪♫