quinta-feira, 28 de julho de 2016

borbolet-ar



Diagnóstico:

Sofro de vida continuada
Os sintomas não são ruins e, nesse caso, me entrego
Eu me rendo!
Bandeira branca pra mim
Deixa entrar
Deixa vim
Caso elas voem, e sempre voam
Voo junto
Andorinha que procura verão
em alheio coração pra se aquecer
Deu no raio x
Não dá pra fugir (e nem faria isso)
Tem vida por vir
E eu... bem, me rendi.

quarta-feira, 6 de julho de 2016




Bem, as malas estavam prontas, enfileiradas em ordem crescente, próxima à porta de saída. Na parede, os ponteiros do relógio pareciam se arrastar, como se lhes custassem muito uma volta a mais e, pensei que talvez, eles pudessem me compreender.
O taxi ainda não havia chegado – afinal, ainda faltavam duas horas para o combinado; Cigarro e isqueiro nas mãos, fui até o jardim, ainda sem muita iluminação depois que uma das lâmpadas queimou na última semana. Acomodei-me, desconfortável, não por culpa da pedra que escolhi como banco, mas por outras culpas que me doíam a coluna e o coração. Acendi o cigarro e meus olhos doeram; Pensei que deveria ser dor de choro ou, da fumaça que subia da fogueira que ascendi entre meus pulmões, para queimar memórias na inquisição que impus a mim mesma.
Na cabeça, ainda ressoava o que o Tempo disse: “Você não pode mudar o passado. Ele sempre foi. Ele sempre será, mas, eu ousaria dizer, você pode aprender alguma coisa com ele...”.
Cronosfera quebrada, pensei. Sem voltas, conclui. E pude sentir o desespero dos olhos do Chapeleiro estampados nos meus...
Algum tempo passado e o taxi buzina no portão dos sonhos, saio carregando malas pesadas, carregadas de passado e histórias.
Hesitei em levá-las uma vez que para trazer novas experiências carecesse de espaço para cabê-las.
Os relógios pareciam não ir com a minha cara, pois esperei por mais duas horas no aeroporto. Quando a voz no auto-falante ressoou: “Passageiros do voo 357 com destino ao País dos Sonhos, encaminhar-se ao portão de embarque!”
Já na fila, com as mãos suando frio, (nunca havia voado de avião) uma moça se colocava atrás de mim – morena, estatura média e uma beleza única de modo que me chamou atenção.
Entro no avião, sento-me no local predestinado, olho para o lado, a linda moça morena da fila viajaria ao meu lado por 12 horas seguidas.
Sento-me timidamente a seu lado e eis que ela começa um assunto qualquer...
_ Tenho medo de altura, você pode segurar minha mão?
Eu, que sempre me disponho a ajudar não pensei duas vezes em segurar sua mão e começar um discurso de superação a fim de distraí-la.
Conversamos por horas a fio, sem notar que estávamos chegando ao destino.
Alice era seu nome.
Lindo nome, linda Alice.
Me contara toda sua vida, suas viagens, amores...
Pousamos e sem querer, tivemos que nos despedir, uma vez que, agora em chão firme cada uma tomaria um rumo diferente.
Uma das despedidas mais difíceis eu diria. Alice se tornara uma das únicas pessoas que me fizera querer conversar e levar comigo para onde quer fosse no novo país.
Sonhar sozinho têm suas desvantagens.
Tolas. Não sabíamos que a viagem nos traria mais uma surpresa.
Já na entrada do hotel onde ficaria hospedada, avisto a linda moça no balcão de recepção. Caminho até o balcão, já que também teria de fazer o check-in, coloco a mão direita sobre seu ombro e beijo-lhe o rosto.
_ Olá Alice. Você por aqui?
Eu disse em tom de piada. Rimos e nos abraçamos em seguida.
A ironia do destino ao País dos Sonhos nos deixara assustadas, mas bastante contentes com a surpresa. Combinamos um café antes do anoitecer, e, assim o fizemos.
Viciadas em cafeína, este era só mais um ponto de identificação em mais 4 horas de conversa sentadas no café ao lado do hotel.
Alice e eu passaríamos e passamos exatos 30 dias vivenciando juntas essa viagem.
No roteiro estava, adegas de vinhos, teatros, museus, bares, até balada em um dos sábados nós pegamos.
E foi, exatamente neste dia já embriagadas de vodka e cerveja artesanal. Embaladas pelo som eletrônico que tocava na boate, Alice e eu nos olhamos fixamente. Segurei sua mão esquerda com minha mão direita e nos beijamos.
Isso seria ótimo, não fosse nossa última noite no País dos Sonhos.
Chegando no hotel, decidimos por dormirmos no meu quarto, abrimos um vinho seco safra 1980 e abençoadas por Baco nos amamos na última noite juntas.
Seria essa realmente a última noite?
Fato é que as sete da manhã eu voltaria para casa e Alice continuaria sua viagem.
Alice se foi, e nem mesmo Absolem pode me dizer onde encontra-la.
E cá estou eu, de malas feitas, desfazendo o que restou das maravilhas deste país que nos coube tão bem.

                     "Com quantos tragos te trago pra mim? (Alice)"