sexta-feira, 23 de junho de 2017

abraçar-se

Numa dessas conversas de bar, acompanhada por cerveja gelada, Elizabeth ouviu: "abraça teu aquário."
Elizabeth gosta de objetos de decoração e o aquário na mesa de canto da sala lhe passava despercebido. Alimentava o peixe betta duas vezes ao dia apenas para se sentir útil naquele apartamento vazio.
Mas o aquário...bem, nunca tinha refletido sobre ele.
Chegou em casa pós happy hour, que havia se estendido por toda a noite e madrugada a fio, tirou o sapato que lhe apertava os dedos, ligou a ducha no mais quente que sua pele pudesse aguentar, lavou a alma, de modo que suas lágrimas se misturaram em meio à água quente que descia pela cabeça. Não era hora de lavar os cabelos, mas também não era hora de tanta coisa que estava acontecendo que não se importou se no dia seguinte ganharia de presente um resfriado por dormir com os cabelos molhados.
Elizabeth gosta dessas implicâncias sentimentais, e, debaixo do chuveiro quente refletia a utilidade do aquário na sala.
Pessoas sozinhas geralmente possuem gatos, ou cachorros pequenos que lhes servem de companhia. Mas, como disse sabiamente Nietzche "não me roube a solidão sem antes me oferecer verdadeira companhia"; a quem essas pessoas estão enganando? Pensava.
A quem eu penso que estou enganando? Se perguntou.
Passou a mão no sabonete líquido na beirada do box do banheiro, massageava seu corpo como quem esperava um carinho, um afago, e as lágrimas teimaram em continuar caindo e se misturando à água quente. A temperatura da água também era proposital, precisava se sentir acolhida em meio ao caos que aquela conversa de boteco havia lhe colocado.
Mas o aquário, bem, ele é casa né? Ele é a moradia do betta. E o betta? Não lhe ouvia, não lhe entendia, estava ali só para que Elizabeth tivesse uma utilidade duas vezes ao dia.
O betta, para existir precisava do aquário, mas este existe por si só. Não carece do betta pra ser aquário, ele só é.
E a voz do bar continuava: "abraça teu aquário."
Exista Elizabeth! Se baste. Se envolva com água quente ou fria. Não dependa do betta para existir e ser.
Seja. Pra você, seja!
Percebeu que havia passado uma hora debaixo da ducha quente. Desligou o chuveiro, se envolveu numa toalha macia, pôs-se a caminhar pela casa até o quarto onde vestiu a camiseta de dormir.
Viciada em cafeína, decidiu por fazer um café às 3 da manhã, acendeu seu último cigarro, já que havia fumado durante toda a noite no bar.
Sentou-se no sofá novo da sala como quem precisa de um abraço, e abraçada pelo sofá, acolhida pela xícara de café quente, ousou abraçar seu aquário.
Aceitou o vazio do apartamento, voltou seus olhos pra si, e viu que  dentro dela havia um oceano inteiro habitado por muitas espécies, (não somente o betta da sala.)
O mundo era bem maior que o apartamento com um sofá novo, um betta esperando por alimento e um aquário de enfeite.
Abraçou teu oceano - nada pacífico, diga-se de passagem,- e dormiu aquecida por tudo que trazia dentro de si.

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